Por décadas, o Teatro Procópio Ferreira foi mais do que um endereço na Rua Augusta, no coração de São Paulo: foi um símbolo vivo da diversidade artística e um palco para a cena cultural da cidade. Inaugurado em 1948 por Gastão Rachou e batizado em homenagem ao grande ator brasileiro Procópio Ferreira, o teatro ganhou projeção nacional ao abrigar as gravações do humorístico “Sai de Baixo” entre 1996 e 2002, tornando-se parte do imaginário cultural de várias gerações.
No entanto, em janeiro de 2026, a fachada histórica começou a ser retirada e o edifício entrou em processo de demolição para dar lugar a um empreendimento imobiliário um desfecho que revela bem mais do que a simples perda de um espaço físico.
A sentença que transformou um teatro centenário em entulho não surgiu por acaso: o Procópio não tinha tombamento pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), ou seja, não havia nenhuma proteção legal que impedisse sua destruição. Esse fato por si só já deveria ser motivo de reflexão crítica: por que um espaço de importância histórica e cultural não foi devidamente preservado por quem tem o dever de proteger a memória da cidade?
A demolição não é apenas o fim de um teatro: é a síntese de uma prioridade participativa equivocada. Enquanto áreas de cultura e memória que conectam o presente à história das artes e da sociedade desmoronam, o mercado imobiliário cresce celebrando novos empreendimentos que pouco acrescentam ao tecido cultural urbano, exceto mais altos prédios e especulação de terra. A Rua Augusta, que por décadas foi um epicentro de diversidade cultural, lojas alternativas, teatros e casas noturnas, hoje está sendo transformada quase que exclusivamente em espaço para moradia de alto padrão e comércio homogêneo, apagando memórias coletivas no processo.
A reação de artistas e pensadores foi instantânea e contundente. Miguel Falabella, que atuou em inúmeras produções no Procópio, descreveu o momento como uma perda de sonhos e de risos dentro dos escombros. Kleber Mendonça Filho chamou de “inacreditável” a destruição de um teatro de 77 anos em uma cidade como São Paulo, no século XXI. Luana Piovani lembrou da importância pessoal do espaço para sua carreira.
Esses lamentos traduzem algo maior: a frustração de uma comunidade artística que vê a memória cultural ser reduzida a espaço de lucro, sem debate público efetivo ou planejamento urbano que contemple o valor simbólico e social de equipamentos culturais. Não se trata apenas de preservar uma fachada ou um palco, mas de manter viva a ideia de que cidades não são feitas só de concreto e lucro são feitas de histórias, encontros, plateias, estreias, aplausos, erros e histórias compartilhadas. Essa dimensão intangível e ao mesmo tempo essencial — está desaparecendo junto com os tijolos do Procópio.
Ao fechar esse capítulo da história paulistana, nos resta uma pergunta que deveria ecoar nas políticas públicas: qual é o papel da cultura na construção de uma cidade e quem decide seu valor? Porque, se espaços como o Procópio Ferreira continuam vulneráveis à lógica da especulação imobiliária, a resposta parece cristalina e profundamente preocupante.
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